Informativo bimestral do Instituto Fazer Acontecer (IFA), ONG que trabalha com o esporte na perspectiva da educação em comunidades populares da Bahia desde 2004. Atende atualmente cerca de 350 adolescentes em projetos nas comunidades do Bairro da Paz, Calabar e Recanto Feliz em Salvador-BA e nas cidades de Valente e Riachão do Jacuípe-BA. Para mais informações acesse: www.fazeracontecer.org.br
1- Qual a sua opinião sobre o uso do esporte educação para a formação das crianças e adolescentes?

Na visão da escola integral (que envolve as áreas complementares da educação como as artes, cultura entre outros, além das disciplinas normais) o esporte não é apenas mais um instrumento para a educação. Ele é considerado um processo educacional em si mesmo. Tanto na escola como em atividades complementares a ela, o esporte é um dos elementos educacionais mais fortes que eu posso eleger, pois a dedicação que a criança dispensa à atividade esportiva é clara, faz parte da forma com que ela lida com o lúdico, pois a criança quer brincar, usar seu corpo.

O uso do esporte tem que ser feito dentro de um processo livre, porém com métodos educativos pedagógicos, compatíveis com a idade, classe social, a região onde mora, ou seja , tem que estar contextualizado à vida das crianças e adolescentes.

   
Ruy Pavan é coordenador do UNICEF para os Estados da Bahia e Sergipe.
2- O que levou o UNICEF a se tornar parceiro do IFA?

O primeiro motivo é a seriedade de caráter da proposta dos que formam o Instituto, fator que o Unicef considera fundamental para a formação de suas parcerias. O segundo é a competência técnica que o Instituto apresenta, ou seja, existe um rigor para se fazer as coisas bem feitas, a organização possui um grau de planejamento, de organização, que deixa transparecer que é uma proposta estudada, não são atitudes improvisadas. A terceira razão é estratégica, já que são pouquíssimas as ONGs que lidam com o esporte no Brasil. Na Bahia eu não conheço praticamente nenhuma, e as que conheço são frágeis, não tem as qualidades do IFA.

A parceria com o Instituto tem o objetivo de mostrar o caminho a ser seguido pela sociedade, pois a sociedade civil organizada ocupa muito pouco o espaço politico na reivindicação das políticas públicas de esporte. O esporte é um direito da criança e do adolescente, assim como a educação e a saúde. Ele está previsto na constituição, no estatuto da criança e do adolescente, então precisa ser reivindicado, e através das ONGs é que se torna possível criar esses mecanismos de pressão democrática legítima para que as coisas aconteçam.

3- A ideologia do esporte-educação representa também um dos motivos para esta parceria?
Claro que sim, a forma de ver o esporte, o processo que ele desenvolve para a criança, não sendo ele um esporte de resultado, ou que vise apenas a formação esportiva, prioriza a formação integral, a formação cidadã, é um fator muito importante para a consecução desta parceria e precisa ser destacado.
4- Qual a importância de uma organização como o IFA para o Estado da Bahia?
Estrategicamente é fundamental para o processo de construção do esporte como política pública do Estado da Bahia. Até para o Unicef, a participação do esporte como parte integrante dos seus programas é uma situação recente. Para um Estado como a Bahia, assim como todo o nordeste, de um modo geral as questões educativas e os indicadores são muito ruins, não existe política pública de esporte escolar, nem como direito para crianças, adultos, nem como forma de lazer. Essa é uma área muito carente, então a presença de uma organização que tenha uma visão política do esporte como instrumento de educação, de formação de cidadania é fundamental para que mudanças ocorram.
5- Como você qualifica o trabalho do IFA no programa do selo Município aprovado?

A intenção em colocar o esporte como tema integrante no Selo Município Aprovado foi levar as primeiras discussões aos municípios para a organização de políticas públicas de esporte. A busca pelo IFA foi levar isso através de conceitos, de princípios que o Unicef adota e que o Instituto compartilha, como o do esporte democrático, que respeita valores e diferenças entre os indivíduos, falando a linguagem da educação, do direito, e da cidadania.

A importância do IFA no programa do Selo Município Aprovado é exercer, junto com o Unicef, o papel da sociedade civil de provocar, mostrar caminhos e apresentar metodologias para a continuação deste trabalho pelos municípios.

O desenvolvimento das oficinas ministradas pelo IFA no interior - através do programa do selo - provou que nós acertamos na escolha do parceiro, e acertamos também no interesse que os municípios tinham pelo tema, já que na pesquisa de resultados o esporte foi o mais escolhido entre os temas disponibilizados.

6- O que a capacitação de professores e a formação de turmas pelo IFA no interior representa para o semi-árido?
Esta oportunidade que surge é uma espécie de pós-graduação do Selo Município Aprovado. Infelizmente, a formação de professores proporcionada pelo Selo, tanto por questões financeiras, quanto por questões de tempo, foi muito genérica.
Como conseguimos um recurso adicional, resolvemos fazer uma experiência com dois municípios do semi-árido, vencedores do Selo Município Aprovado. Desta vez, os municípios são Valente e Riachão do Jacuípe, mas a vontade do Unicef é ampliar essa iniciativa através da articulação com outros programas que tem parceria, como a Caravana do Esporte, com a ESPN, entre outros.